Uma vez estagiário, sempre estagiário.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Eu, minha moto, e dois mil quilômetros em vinte e nove horas.

Escrito por with 4 comentários
Que sempre fui apaixonado por motos e estrada, isso todos já estão carecas de saber, mas nunca tive a coragem ou melhor, nunca me deixaram ter a coragem de fazer uma longa viagem. Pois bem, decidido a mudar essa história, resolvi antes mesmo de voltar para o Brasil que eu iria fazer uma viagem para o sul, ao estado da Santa Catarina para visitar um amigo que conheci no Canadá. Para tanto, teria que sair da minha cidade no interior do estado de São Paulo, cruzar o Paraná além da metade do meu estado e do estado de Santa Catarina.

É interessante a quantidade de pessoas que desaprovam algo porque elas mesmas não teriam coragem de fazer. Ouvi muitas coisas, desde a possibilidade de ocorrer um problema mecânico a outros problemas como alguém roubar minha moto no meio da estrada, ou ainda problemas de outros condutores de fazerem eu me acidentar. Outros ainda duvidaram da minha sanidade, afinal, onde já se viu dirigir por mais de dez horas seguidas.

Para evitar problemas, resolvi prevenir o máximo para que a moto não tivesse problemas de mecânica. Troquei o óleo, filtro, o pneu traseiro, e as pastilhas de freio, além de pedir para lubrificar a corrente e esticá-la. Feito isso, enchi o tanque e fui viajar.

Depois que fiz essa viagem, percebi que realmente a cilindrada de nada conta em grandes viagens. É lógico que uma moto com mais potência poderia me deixar mais confortável ou poderia me levar ao meu destino mais rápido, porém isso não quer dizer que a minha moto, uma Fazer 250, não aguentou fazer a viagem, muito pelo contrário, além de conseguir aguentar o tranco de ida e volta, hoje ela está mais fácil de dirigir.

Este nascer do sol mostra que a viagem realmente valeu a pena

Marco 0.0km
Acredito que a ligação entre máquina e o piloto é algo que não é fácil conseguir no dia a dia, mas em um momento onde você fica muito tempo pilotando o carro ou moto, você consegue realmente sentir cada momento, cada vibração, cada torque da máquina, passando por você de um jeito que não há nada que tenha a mesma sensação. Você sente que o pneu no asfalto é como se você estivesse correndo, porque é muito fácil medir uma ultrapassagem, uma frenagem, uma necessidade de torque ou ainda uma limitação de potência.

Chegada em
Garopaba
Por fim, aprendi nessa viagem de treze horas de ida e dezesseis de volta, que a felicidade realmente não vem de concluir um objetivo e sim do processo em si. Colocar todo o equipamento, a mochila com roupas, e mandar ver. Parar alguns momentos, apreciar a vista, ter a certeza da felicidade na pequenas coisas, ligar o motor novamente e tocar mais algumas dezenas de quilômetros, conversar com garçonetes e frentistas, dar risada recíproca devido ao sotaque estranho, ganhar um simples olhar ou sorriso de uma linda garçonete e dizer que ela tem o sorriso mais lindo do mundo, deixar o dia dele mais feliz e contente, mesmo que seja por apenas alguns minutos.

Vou contar aqui uma das coisas que ocorreram durante a ida e a volta. Entre as cidades de Ponta Grossa e Curitiba, parei em um restaurante para tomar um café expresso, o meu combustível em grandes viagens. Lá conheci uma garçonete chamada Luci. Moça de cabelos loiros, olhos cor de mel, e que do momento em que me atendeu até o momento que sai do estabelecimento esboçava um sorriso para todos os clientes. Enquanto eu tomava o meu café no balcão, quando viajo sempre tento ficar em pé nos cafés para poder circular melhor o sangue nas pernas, vi que ela estava tomando um esporro do gerente, que no mínimo havia acordado de mau humor. Mesmo assim, Luci não deixou de delicadamente sorrir para todos os clientes. Quando percebi que o gerente tinha saído e havia terminado de tomar o café seguiu-se a conversa:

- Luci, desculpe, acredito que esse seja o seu nome, certo?
- Sim senhor. O senhor deseja mais alguma coisa?
- Na verdade, eu preciso de dizer três coisas, e gostaria que a senhorita não me levasse a mal.
- Tudo bem, pode falar. - O sorriso no rosto dela continuava sereno e doce.
- Primeiro, você é a primeira garçonete em mais de quinhentos quilômetros percorridos que não retirou o sorriso do rosto para nenhum cliente, segundo, que o seu atendimento é excelente, por mais que o seu gerente diga que não, e por fim mas não menos importante, a senhorita é linda, espero que os seus objetivos sejam grandes e que consiga conquistar todos eles. Vou lhe dar uma gorjeta pelo seu serviço - retirei cinco reais do bolso - e prometo que se daqui a uma semana você estiver aqui, dobro a sua gorjeta.

Chegada em casa.
Ela agradeceu, ficou muito sem jeito, aceitou a gorjeta e fui embora, um simples gesto que me custou cinco reais que deixou o dia dela pelo menos um pouco melhor. Peguei minhas coisas e segui viagem, por mais algumas horas.

Neste meio tempo, peguei Sol, tempo nublado, pancadas de chuva, e nada abalou o meu estado de espírito. Acredito que estava tão feliz com ter encontrado a felicidade no processo, que encarava cada dificuldade como novo desafio. Quando cheguei em Garopaba a sensação de dever cumprido foi simplesmente algo inesquecível. Fiquei lá apreciando as praias, festas e baladas durante uma semana.

Simplesmente um lugar maravilhoso
E amizades que duram centenas de quilômetros fazem valer a pena
Na hora da volta para casa, entre conversas de diversos amigos que ficaram no meio do caminho entre Bauru e Garopaba, infelizmente só consegui visitar um em Curitiba, e de maneira muito rápida. Uma amizade selada a quase dez anos e que boa parte das coisas feitas em minha adolescência contam com o nome dele como co-participação.

Amizade que nem a distância e o tempo separa
No outro dia, quando fui de Curitiba até Bauru, passei novamente no restaurante onde Luci trabalhava. Quando entrei não a vi no balcão, então pedi o meu café expresso e estava no mesmo lugar que a uma semana atrás. Enquanto estava tomando o meu café, vi Luci chegando atrás do balcão e do mesmo modo que a uma semana atrás, ela sorriu para mim, e esboçou uma gargalhada ao lembrar de mim, coisa que realmente me deixou impressionado, pois não acreditaria que ela lembraria de mim. Começamos a conversar e ela disse que o que havia dito para ela naquele dia foi o ponto mais alto no serviço dela naquele mês. Disse que não tinha dito nada além da verdade e que ela realmente tinha os dons, talentos e diferenciais que havia comentado. Ela comentou que estava estudando enfermagem em uma faculdade daquela cidade e que o sonho dela era se tornar uma enfermeira e ajudar o máximo de pessoas que conseguisse. Disse a ela que isso era outro dom que ela tinha, de se importar com as pessoas e que era muito difícil encontrar isso. Pedi outro café e cumprindo minha palavra, lhe dei dez reais de gorjeta, mas dessa vez ela recusou, dizendo que aqueles dez reais era uma gorjeta para mim, por ter deixado o trabalho dela mais feliz.

Sabe, acho que o problema do mundo hoje, é que realmente ninguém da importância as pequenas coisas. Uma simples conversa com uma garçonete que possivelmente nunca mais irei ver na minha vida, me trouxe uma felicidade imensa.

A viagem de volta foi bem mais cansativa por conta de estar a uma semana dormindo mal e comendo mal, mas mesmo assim não tirou a beleza dos lugares, das vistas e das pessoas. E uma coisa que aprendi foi a ter respeito pelos caminhoneiros, as pessoas mais odiadas nas estradas que sinceramente foram as mais gentis se comparados aos carros. Fiz uma parada em um agrupamento de caminhoneiros para pedir uma rota alternativa - queria testar uma outra via, para fugir da que já conhecia - e os mesmos caminhoneiros me ensinaram um outro caminho com uma facilidade e gentileza incrível. Portanto, digo hoje desculpas a todos os caminhoneiros que um dia comentei algo ruim, vocês merecem meu respeito e sou muito grato a vocês.

Quando cheguei em casa, a adrenalina corria tanto em minhas veias que demorei muito tempo para conseguir diminuir o ritmo e descansar de verdade. Resumidamente, acredito que esta viagem foi para começar este ano com o pé direito. E uma coisa que digo a todos vocês. LIGUEM O FODA-SE E FAÇAM AQUILO QUE TEM VONTADE, POIS SE DEPENDER DOS OUTROS, VOCÊ NUNCA FARÁ ALGO QUE REALMENTE GOSTA E QUE TENHA UM CERTO RISCO.

Uta!

4 comentários:

  1. Muito bacana, meu caro amigo.
    Sim, como pequenas coisas, um sorriso, uma conversa com um desconhecido, um elogio, uma gorjeta, pode nos fazer tão felizes. Sempre me impressiono, hoje em dia um pouco menos, quando isso ocorre, pois sempre somos guiados a pensar que a nossa satisfação estará apenas em "grandes" coisas. Não há qualquer problema ir atrás de "grandes" objetivos, mas durante a caminhada aproveitar para conversar com uma garçonete num bar à beira da estrada.

    Grande abraço!

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  2. Muito bom relato. Parabéns pelo blog, cara. Conheci recentemente. Abraço!

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  3. Belo post cara!! Motivador! Também gosto de motos e pretendo ter uma custom ainda.

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  4. Fantástica sua experiência, obrigado por compartilhá-la conosco.

    Sucesso,
    JMSRF

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