Uma vez estagiário, sempre estagiário.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O dia em que compreendi o verdadeiro significado de compartilhar

Escrito por with 9 comentários
Em uma segunda-feira no final de janeiro, fui para Downtown para comprar algumas coisas que faltavam aqui no apartamento. Estava fazendo algo em torno de trinta graus negativos de sensação térmica, e o ar chegava a queimar o rosto.

Terminado meus afazeres, fui para o ponto de ônibus para voltar para casa. Eis então que surge um morador de rua, pedindo dinheiro. Disse que não comia desde ontem de tarde e estava pedindo alguns trocados para que pudesse almoçar. Ele estava com vários casacos, mas percebi que estava com frio, pois suas mãos estavam tremendo e o medo e a agonia estavam estampados no seus olhos.

Olhei para o relógio, vi que era uma hora da tarde, e que também estava com fome. Percebi que havia um Subway próximo ao ponto de ônibus e então juntei o útil ao agradável, chamei o morador de rua para comer um lanche comigo. Disse que não gostava de dar dinheiro, pois não sabia o que ele poderia fazer.

Na hora que o convidei para comer, seus olhos enxeram de lágrima, e a única palavra que saia da boca dele era "obrigado". Como já havia visto diversas pessoas fazerem isso no Brasil para conseguirem cativar a pessoa que ajudava, não fiquei muito comovido. Então, nos dirigimos para o Subway.

Ao chegar no local, por conta do horário, havia ao menos umas quinze pessoas. Entrei primeiro, acompanhado do sem teto. Rapidamente o gerente veio e pediu para ele se retirar, pois não queria que ele começasse a pedir dinheiro dos clientes, mas antes que ele pudesse terminar de falar, disse que o havia chamado e que iria pagar pela sua comida. O gerente disse que, se ele não importunasse os outros clientes, não haveria problema.

Deixei ele ir na frente e disse para a moça do Subway que iria pagar pelo pedido dele. Foi ai que eu aprendi a minha lição, que me fez me sentir um lixo por não ter acreditado no morador de rua. Primeiro ele pediu o lanche mais barato que havia, de apenas quinze centímetros (o menor tamanho no Subway) e depois, quando foi para pegar o que beber, ele pediu uma água. O pedido dele não deu mais que sete dólares, enquanto somente o meu havia sido mais de onze dólares devido a tudo o que pedi.

Quando sentamos para comer, logicamente dividindo a mesma mesa, perguntei para ele se ele não estava com fome. Ele respondeu que sim, e então perguntei, por que ele não pegou um refrigerante e um lanche de trinta centímetros? A resposta dele foi:
Não quero abusar da sua bondade. Você já está me ajudando demais, me comprando este sanduíche, mas sinceramente, você está fazendo com que eu me sinta uma pessoa novamente, por me chamar para comer junto com você.
Foi a frase que mais me comoveu na vida inteira. Disse pra ele comer o lanche, tentando não derramar as lágrimas do olho, mas então, antes de desembrulhar a comida, ele me perguntou: Posso fazer uma oração antes de comermos? Disse que sim e essas foram as palavras que ele disse:
Obrigado meu Senhor, por esta refeição. Obrigado Senhor por fazer com que eu cruze com este anjo, principalmente neste dia de grande dificuldade. Obrigado por tudo Senhor. Amém.
Neste momento o sem teto não consiguiu conter as lágrimas e começou a chorar. Eu disse que estava tudo bem, mas também estava chorando, já que nunca tinha visto uma demonstração de gratidão tão grande quanto aquela. Terminei de comer e disse a ele que tinha que ir ao banheiro. Pedi um lanche igual ao que ele havia pedido, mas desta vez um de trinta centímetros. Comprei mais duas águas e pedi para a moça colocar em uma sacola. Quando ele estava se levantando para ir embora, perguntei a ele:

 - Você acredita em Deus?
 - Sim.
 - Você acredita em milagre?
 - Sim.
 - Então toma. Um lanche para você comer quando estiver com fome e mais duas garrafas d'água. - Tirei trinta dólares da carteira - E este dinheiro é para você recomeçar a sua vida. Sei que não é muito, mas já é o começo. Deixe Deus com orgulho e tente melhorar sua vida.

Ele me pediu um abraço e me agradeceu pelo menos mais umas dez vezes. Meu ônibus já havia chegado, então corri para não perdê-lo. Corri chorando, de felicidade por ter ajudado alguém, mas também por ódio de mim mesmo, de ter desconfiado de alguém como ele.

Voltei para o centro da cidade várias vezes depois daquele dia, normalmente no mesmo horário e nunca mais encontrei o sem teto. Não sei o que aconteceu com ele. Não sei o nome dele. Nunca mais vi ele. Só sei que eu desejo que ele tenha melhorado de vida, porque ele melhorou a minha. Ele me mostrou o verdadeiro significado da palavra compartilhar. Como uma coisa que para mim é algo banal, pode ser algo tão importante para outra pessoa.

Vejo diversas pessoas que não ajudam ninguém, que julgam assim como eu julgava os outros, ou ainda que simplesmente fazem vista grossa com o pedinte. No Brasil, vejo várias pessoas dizendo que não vão ajudar a ninguém, já que o governo é uma mãe, então que eles peçam para a presidente.

Não tiro a razão deles, porque sei como é difícil ajudar alguém sem saber se esta pessoa irá realmente utilizar o dinheiro da forma correta. Mas ao mesmo tempo, percebi que, a partir do momento que nós ajudamos uma pessoa querendo que ela faça algo que nós queremos, ou que ela retribua o favor, na verdade não estamos fazendo uma bondade. Estamos fazendo negócios.

Portanto, hoje, gostaria que vocês repensassem sobre ajudar alguém, seja com dinheiro, seja com roupa ou comida. Seja para um morador de rua ou uma entidade, mas pense em ajudar... Porque nesta vida, não se conta aquilo que recebemos, mas sim aquilo que compartilhamos.

Uta!

9 comentários:

  1. Puta história! Com certeza foi algo que vai te marcar pro resto da vida. Acredito que vc não deva sentir raivia de si mesmo por ter desconfiado do cara, pense que dentro da cultura onde vc foi criado o mais provável seria uma mentira mesmo, vc estava agindo a favor de seus conceitos.

    Sabe-se Deus o porquê de um cara virar homeless num país desenvolvido e com oportunidades, o fato é que essas pessoas estão em todos os cantos do mundo, mas o diferencial é a atitude, dele de ser humilde (odeio essa palavra, mas não me vem outra) e a sua de ser humano. O fato é que nesses casos o que vale é a intenção, o que ele irá fazer com os 30 bucks está na consciência dele, não na sua.

    Veja os caras mais ricos do mundo, veja o Mr Money Mustache que não é rico mas é inteligente com o dinheiro. O que eles tem em comum? A filantropia, todos possuem entidades ou ao menos doam seu tempo em prol de pessoas com necessidades. Acredito que devemos seguir o mesmo rumo, de uma maneira ou de outra.

    Confesso que acredito sim que não é minha função sair ajudando as pessoas por aí, até porque vamos ser francos, grande parte é aproveitadora e preguiçosa, mas acho justo ajudar "qd o coração manda". É isso que vc fez e é isso que já fiz algumas vezes.

    Parabéns por se deixar ter essa lição de aprendizado de vida, talvez se vc não tivesse encarado o desafio de mudar de vida, pra um outro país e sozinho, vc demoraria muito pra aprender esse tipo de coisa. Uma coisa puxa a outra.

    Abração!

    Corey

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    1. Grande Corey,

      Já me marcou Hahahahaha!

      Cara, a gente não para pra pensar, mas eu imagino que a maioria dos mendigos tem uma história de sucessões de merda que aconteceram nas vidas deles, que eles chegaram onde chegaram, sejam merdas causadas por eles ou por terceiros.

      Isso que eu gostaria de cara, a filantropia. Uma coisa que eu tentarei mudar quando eu for para o Brasil, tentarei ou dar meu tempo ou qualquer outra forma de ajuda para pessoas que precisam. São nessas horas que a gente percebe que temos muito mais do que muitas pessoas.

      Sei que a gente não é nenhuma Madre Teresa, mas quando o coração manda e nós ajudamos, cara... que satisfação.

      Um grande abraço! :)

      Uta!

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  2. Cara que história! de arrepiar!
    Como o Corey falou, infelizmente aqui no Brasil somos cercados de pessoas tentando se aproveitar.

    Eu sei como você se sente, pois passei por algo parecido (assim não tão parecido, mas enfim). Parei o carro em um semáforo e um senhor veio vender balas, logo veio com aquela conversa que estava passando por dificuldades e tudo mais. Eu estava indo para a aula de tênis e não estava muito legal, sei lá, eu estava meio "prá baixo". Ainda bem que não destratei o senhor, apenas falei que não queria as balas e agradeci.

    Não sei pq, o senhor virou para mim e falou (algo parecido) "Cara não desanime, o senhor está contigo" ( e falou uma linda mensagem que também não lembro). Ele também agradeceu por eu ter baixado o vidro do carro e ter falado com ele.

    Abriu o semáforo e comecei a refletir a mensagem que o senhor acabara de me passar (que tirou aquele mau estar em que eu estava) e também sobre a postura dele. Percebi que as vezes se fechamos em nosso mundo e focamos em problemas como se fossem os "piores possíveis" (não achei uma descrição melhor, desculpem).

    O mais interessante é que semanas após o ocorrido, vi em um jornal local a foto do cidadão (vendedor de balas) e uma reportagem dizendo sobre sua simpatia e suas mensagens que ajudaram algumas pessoas.

    Parabéns Estagiário! sua atitude foi brilhante, acredito que você teve uma "sensação unica" e que não há palavras para descreve-la. Concordo mais uma vez com o Corey sobre "ajudar de coração", já fui até criticado por isso, mas eu sentia que eu devia ajudar e ajudei.

    Abraços!


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    1. Olá Inglês,

      Cara, depois de ajudar o sem teto, percebi que, indiferente de onde estivermos, ou de onde morarmos, a bondade vem do coração... Então, se você está ajudando alguém pensando se ele vai ou não fazer o que você acha certo, não é correto. Você tem que ajudar porque você acha que deve, indiferente do que a pessoa vai fazer.

      Sobre o cara do semáfaro... É muito complicado, quando as pessoas que nunca nos conhecem conseguem tocar a gente de uma certa maneira que nos deixa desconcertado. Acho que essas pessoas são as mais ricas do mundo, porque por elas plantarem bondade, elas tem mais chance de colher bondade, do que nós meros mortais.

      Uta!

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    2. Concordo com você! Ainda mais quando vi a foto do senhor do semáforo no jornal. Realmente são as mais ricas!

      Abraços

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  3. Parabéns Estagiário,

    Grande história e bela atitude.
    O morador de rua ganhou o que comer e umas garrafas de água e você recebeu a gratidão dele e uma história para se lembrar o resto da vida.

    Abraço,
    Chimpa

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    1. Olá Chimpa,

      Isso é verdade. Ele realmente me deu uma grande história para contar, mas também um excelente lição de vida.

      Uta!

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  4. Fala Estagiario


    Caramba meu velho, que bela história e belo gesto. Parabéns, precisamos de mais seres humanos como vc. E não se culpe por ter julgado na primeira vista, vc vem do Brasil cara, o lugar com mais picareta por m2 do planeta. Ai vc considera que o cara é um hobo em um país desenvolvido e fica com o pé atrás. Espero que ele tenha conseguido dar um jeito na vida dele.

    Muito bom mesmo.

    Abs

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    1. Olá Rover,

      Obrigado. Também fiquei pensando que o fato de nascer no Brasil tenha feito eu pensar dessa maneira, mas mesmo assim... Ainda acredito que foi erro meu, porque indiferente de onde nascemos, bondade vem do coração :)

      Uta!

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