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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O preço de tudo e o contra argumento do livre mercado

Escrito por with 4 comentários
Estava assistindo algumas palestras no TED Talks e encontrei esta, que vai de encontro a alguns preceitos do livre mercado, mesmo que este não seja o tema principal da mesma.

O palestrante, o senhor Michael Sandel, mostra o porque não deveríamos confiar nossa vida cívica aos mercados. De maneira geral, Sandel comenta sobre como em determinadas circunstancias o mercado tenta colocar preço naquilo que na verdade não há, e como isso tende a criar um preço nas coisas que não possuem valor monetário. Sandel utiliza como argumentos cinco casos, dois relacionados a educação e três relacionados a outros temas.

Alguns dos temas são as filas fast track dos parques de diversão, onde você paga um determinado valor para furar fila. Outro tema comentado por ele são as pessoas que são pagas para ficarem nas filas para depois cederem os lugares para os pagantes, podemos colocar aqui também os cambistas. Outro ponto comentado rapidamente é sobre celas privativas em algumas prisões nos Estados Unidos, onde o preso pode alugá-la por oitenta dólares o dia para ter mais comodidade.

Os comentários feitos na área da educação é sobre, dar aos alunos recompensas em dinheiro por boas notas e por lerem livros, neste último caso, paga-se dois dólares para cada livro lido. O primeiro experimento mostrou-se bem heterogêneo, já no segundo foi possível verificar um aumento na quantidade de livros lidos pelas crianças, porém houve um decréscimo na quantidade de leituras de livros com quantidade de páginas maiores.

Mas o que Sandel quer demonstrar com isso? Que estamos transformando o mercado, que é uma ferramenta, em um modelo social em nossas vidas, onde existe um preço para tudo, podendo criar assim uma mudança de comportamento negativa na vida das pessoas.

Para quem não sabe, os seres humanos possuem dois tipos de comportamentos, os instintivos e os aprendidos. Os comportamentos aprendidos são divididos em três tipos básicos: por imprinting, por conhecimento e por associação. O principal tipo utilizado por nós e o por associação, um exemplo claro disso é a nossa fala e escrita, pois associamos determinadas coisas da realidade a um punhado de letras ou sons.

Mas o que isso tem haver com o tema? Ao darmos aos alunos prêmios em dinheiro para que eles possam ler, estamos na verdade criando um aprendizado por associação, ou seja, a criança associa a leitura com o ganho de dinheiro. Mas o que há de problema com isso? Simples, o que acontece quando retiramos o prêmio? A criança tende a parar de ler, pois ela não tem mais o que associar a leitura. Isso por sua vez, além de criar um hábito errado, cria também um método de extermínio da leitura por prazer.

Na minha opinião, Sandel está correto quando fala dos malefícios da transformação do mercado em uma sociedade ao invés de ser uma ferramenta. É de se esperar que isso ocorra quando temos um livre mercado, pois para esta ideologia, a base principal está no mercado, no valor e nos preços das coisas. Sendo assim, acredito que, a troca mercadológica não muda o valor de bens materiais, porém isso não se aplica quando falamos de bens não-materiais e práticas sociais. Então, temos que tomar cuidado quando implantamos o livre mercado. Temos que guiá-lo de maneira correta, assim como no capitalismo desumano, onde os trabalhadores eram explorados até a última gota de suor e sangue.

E vocês, o que acham sobre o tema?




Uta!

4 comentários:

  1. Olá, Estagiário. Eu gosto do Sr. Sandel.
    Inclusive escrevi alguns textos sobre inspiração em um livro dele.
    A ideia de que o livre-mercado não é suficiente para regular todas as esferas da vida humana e que ao fazê-lo ele tira a dignidade de muitas delas é algo que eu tendo a concordar.
    Isso é um perigo. É muito comum nesse debate citarem socialismo, comunismo, ou sei lá o que. Mas não é essa a questão. O ponto é se podemos transformar todas as nossas relações humanas em relações comerciais, e se ao fazer isso não vamos destruindo algo muito importante na nossa humanidade.

    Abraço!

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    1. Soul,

      Exatamente, acredito que nenhum modelo é perfeito, mas temos existem sim os que são melhores que outros. No caso do livre-mercado, temos apenas que tomar cuidado com isso, pois este modelo cria esta ideia de precificar tudo.

      Devemos ter consciência dos problemas e tentar resolvê-los antes mesmo que eles comecem a aparecer.

      Uta!

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  2. Olá estagiário, excelente post por sinal....

    O problema dessa discussão é que sempre há uma vertente que radicaliza e acaba anarquizando a lógica do livre mercado...

    Quem realmente acha que dá para deixar na mão das pessoas se auto regularem vai descobrir a pior essência do ser humano.... Infelizmente não somos capazes de conquistar esse nível de convivência em sociedade. Como espécie, temos a nossa limitação.

    É muito lógico que existem uma infinidade de coisas que não tem preço... Sem querer parecer piegas mas quanto vale uma vida? quanto vale um amor?...Então nessa discussão parece que descambou para o anarco capitalismo selvagem em que tudo tem um preço..

    Quem defende o livre mercado, sabe da importância do Estado... A função do Estado é regular e proteger, para que o livre mercado funcione em sua plenitude...

    Se o estado não regulasse o traficante seria considerado um empresário de sucesso...Se o estado não regulasse a pirataria iria tomar conta do próprio estado...

    Mas isso não é o livre mercado, isso é uma vertente anárquica.

    Não devemos recompensar uma pessoa por ela ser honesta por exemplo, isso é uma obrigação de caráter. No momento em que nós a recompensamos nós a corrompemos.

    Isso acontece no outro oposto também, quando alguém fala em política do bem estar social sempre alguém radicaliza e acaba criando um factoide comunista.

    Como homens de bem nos resta a ponderação...

    Grande Abraço

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    1. Olá PC,

      Excelente comentário. Temos que utilizar do poder do Estado, que ainda existe logicamente no livre-mercado, e tentar fazer com que os problemas deste modelo, não cheguem nem sequer a aparecer, pois assim, podemos contorná-los sem necessariamente haver prejuízos a população.

      Uta!

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