Uma vez estagiário, sempre estagiário.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Analisando Balanços [Parte 02]

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Caso não tenha acompanhado a primeira parte, veja aqui.

E ai, o que acham desta empresa ?

O ativo circulante está estável, com uma boa quantia de dinheiro em aplicações financeiras de curto prazo, possui o ativo imobilizado controlado e o intangível com boa participação. O passivo também está estabilizado, demonstrando que a empresa é boa... será ? Vamos ver o resumo.

O patrimônio líquido está positivo, o que significa que ela não está ruim das pernas e muito menos é uma empresa em pré-produção, as reservas de capital estão caindo, o que significa que está sendo retirado dinheiro do colchão de segurança, os prejuízos acumulados assustam, chegando a mais de um bilhão e duzentos milhões de reais. Ou seja, a empresa não está dando lucro mas sim prejuízo. Será mesmo ? Vamos conferir no demonstrativo de resultados.


Como podemos analisar anteriormente a empresa está dando prejuízos enormes. Em vários trimestres o lucro líquido está negativo, o que sugere que ela não está conseguindo nem criar lucro com as vendas e serviços. Possui despesas altíssimas com vendas e administrativo. O último trimestre com lucro foi o último trimestre de 2011. Podemos dizer que essa empresa não é uma empresa muito indicada para investirmos, afinal, empresa boa é empresa que gera lucro, entre dar prejuízo e não investir, a segunda opção sempre é a melhor.

Vamos fazer mais uma análise.


E esta empresa ? Será que ela é melhor do que a primeira ?

Vamos analisar. O ativo está em constante crescimento, o que significa que está entrando dinheiro por algum lugar. As aplicações financeiras estão crescentes, assim como as contas a receber. Temos pouco dinheiro em investimentos, mas muito dinheiro imobilizado e ativo intangível em crescimento. É uma empresa que utiliza maquinários grandes e não precisa de muito investimento. O passivo acompanha o crescimento do ativo, não é o melhor resultado, mas as contas acompanham os ganhos. Possuí uma reserva de lucro constante ou crescente dependendo do período analisado, e o patrimônio líquido está crescente.

Tudo está dando a entender que a empresa está em crescimento. Será mesmo ? Vamos analisar o demonstrativo de resultados.


A receita está crescente assim como o lucro bruto. Isso significa que não está tendo perdas com os custos de venda e serviços. O Ebitda está crescente e o lucro bruto também. Ou seja, está é uma empresa que está aumentando cada vez mais seus lucros. Parece ser uma boa pedida para investirmos.

Se você concordam com a análise, vocês acabaram de dizer que a GOL é uma empresa ruim e a Marcopolo uma empresa boa.

Mas é realmente necessário fazer a análise da balanços com todas as empresas, ou ainda analisar todas as informações contidas neste documento? Sinceramente? Nunca fiz isso e não desejo fazer. A alguns posts atrás eu falei sobre como eu filtrei 20 ações para investir (Parte 01Parte 02Parte 03Parte 04 e Parte 05), simplesmente analisando alguns múltiplos, margens, ROE e lucros de determinados setores. Acredito que análise de balanços é muito interessante para aprendizado e para separar as empresas boas das excelentes, funcionando como mais um filtro. No entanto, acredito que não há a necessidade de se observar todas as informações. Os dados compilados como Passivo Total, Ativo Total, Investimentos, Imobilizado, Intangível, Reservas de Capital e Lucros e Prejuízos Acumulados são suficientes para uma boa análise. Com essas informações vemos se as contas estão acompanhando os ganhos, e qual o estilo da empresa, se ela investe muito, ou se tem muito dinheiro em construções e equipamentos. Já o demonstrativo de resultados é mais interessante e fácil de se fazer uma análise. Primeiramente batemos o olho no lucro/prejuízo do período, para vermos se a empresa dá lucro ou prejuízo, ou se ela é uma empresa cíclica. Depois disso, olhar o Ebitda para comparar empresas de setores diferentes, a receita e o lucro bruto são o suficientes para saber se é uma boa escolha ou não. Acompanhar os números da empresa é interessante para não ser surpreendido, então uma olhada trimestralmente nos balanços das empresas em carteira acredito ser o suficiente.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Analisando Balanços [Parte 01]

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Este tutorial tem como principal objetivo mostrar de maneira descomplicada como podemos ler o balanço das empresas, seus demonstrativos de resultados e retirar informações importantes nos números apresentados.

Nesta primeira parte irei mostrar algumas definições e o que cada parte do demonstrativo nos fala sobre a empresa, tentando sempre fazer um paralelo com o dia-a-dia.

Utilizarei os balanços do site www.fundamentus.com.br, que na minha opinião são excelentes.

ATIVO TOTAL


Exemplo de um Ativo em um balanço patrimonial
Acima temos um exemplo de balanço patrimonial de uma empresa. Esta parte refere-se ao ativo total da empresa, em outras palavras, todo o dinheiro que foi injetado na empresa, ou ainda quanto foi investido na empresa.

O ativo circulante é quanto dinheiro está circulando constantemente na mão da empresa, ou seja, seria como se fosse todo o dinheiro que você tem em espécie, que está pronto para ser gasto em alguma coisa. O ativo circulante possui subdivisões como caixa (o seu dinheiro na carteira), aplicações financeiras (sua poupança), contas a receber (aqueles R$20,00 emprestados para seu irmão mais novo), estoques (os produtos que a empresa vende, mas que ainda não estão vendidos), ativos biológicos (galinhas, cabeças de gado e aquelas 200m² de cana de açúcar que seu tio tem na chácara), tributos a recuperar (a boa restituição do imposto de renda), despesas antecipadas (aquela conta que você pagou adiantada 2 meses e que teve um desconto de 2%) e outros ativos circulantes (tudo que não se encaixa nas subdivisões anteriores). Todas essas dados podem nos fornecer informações importantes, como por exemplo, se ocorrer uma despesa alta com algo inesperado, como um processo de alguns milhões de reais, será que a empresa pode pagar rapidamente sem que interfira nos ativos de longo prazo ? Uma empresa tem que ter um dinheiro sobrando, como nosso colchão de segurança para imprevistos. Semelhante a nós a empresa não quer retirar dinheiro do longo prazo para pagar por imprevistos no curto prazo.

Depois do ativo circulante, temos o ativo realizável a longo prazo, esta categoria do balanço nos mostra o dinheiro de longo prazo, se comparado a uma pessoa é o dinheiro investido na bolsa de valores, ou naquele fundo que você só poderá tirar o dinheiro daqui 1 ou 2 anos. Suas subdivisões são semelhantes ao do ativo circulante, com o acréscimo do ativo imobilizado (aquele seu carro que você usa para trabalhar), ativo intangível (o conhecimento que você tem, por exemplo, o conhecimento de trocar uma lâmpada não agrega muito valor intangível, mas se você sabe fazer um motor de improbabilidade infinita com uma secadora e um cabo de enxada, então você tem um conhecimento que agrega muito valor intangível. Na área empresarial, podemos dizer que o "nome da empresa" é um ativo intangível) e o ativo diferido (aqueles R$100,00 gastos com aquele curso de daytrade. São os ativos gastos com pesquisa e desenvolvimento). Nesta parte do balanço, podemos observar se a empresa tem algum dinheiro que ela pode conseguir em mais de um ano. Os três ativos descritos aqui são muito importantes na análise pois podemos ver se a empresa gasta muito com pesquisas ou se ela tem "nome" forte no mercado, por exemplo. Empresas consolidadas no mercado tendem a ter o ativo diferido baixo. Empresas que utilizam maquinários grandes e caros tendem a ter um ativo imobilizado grande, e a Coca-Cola tem o ativo intangível muito grande.

Falamos da parte boa da empresa, seus direitos, agora vamos passar para a parte chata e muito importante do balanço, vamos falar dos passivos.

PASSIVO TOTAL


Exemplo de um Passivo de uma empresa
Aqui temos as contas a pagar, o dinheiro negativo da empresa. No passivo total estão todas as obrigações que a empresa tem, monetariamente falando. Do mesmo modo que o ativo, o passivo é dividido em dois, o Passivo Circulante (contas a pagar em no máximo um ano) e o Passivo Não Circulante (contas a pagar com mais de um ano).

O Passivo Circulante é subdividido em obrigações sociais e trabalhistas (o salário da sua empregada e a pensão do seu filho), fornecedores (o entregador de pizza), as obrigações fiscais (o seu imposto de renda), empréstimos e financiamentos (as próximas parcelas do financiamento daquele seu carro para trabalhar), os dividendos (a mesada para o seu filho), as provisões (o décimo terceiro da sua empregada e aquela viagem para Disney) e outros (aquilo que não cabe em nenhuma outra subdivisão). Aqui ficam todas as contas de água, luz, telefone e tudo mais. O Passivo Não Circulante é aquilo que você terá que pagar no longo prazo, são muito semelhantes aos passivos circulantes.

Agora que temos o que somar e o que subtrair, vamos fazer as continhas e ver o resultado, isso pode ser visto na área de Patrimônio Líquido do balanço.

Patrimônio Líquido


Exemplo da área de Patrimônio Líquido de um balanço
No Patrimônio Líquido temos o resumo das informações acima. O valor no Patrimônio Líquido é o ativo menos o passivo. Se este valor é um valor positivo, significa que na pior das hipóteses, se a empresa vender tudo o que tem e pagar todas as suas contas, teremos o determinado valor para dividir entre todos os donos. Uma empresa que tem este valor negativo é uma empresa que possivelmente está mal das pernas ou que está em pré-produção, em ambos os casos temos que ficar de olho, pois se tudo for vendido, ainda terá contas a serem pagas. O Patrimônio Líquido é subdividido em Capital Social Realizado (quanto foi vendido no período), Reservas de Reavaliação (representam aumento de valor do ativo permanente em virtude de novas avaliações, ou seja, aquilo que foi avaliado novamente, como aquele rolo de papel que o estagiário esqueceu de contar no estoque), reservas de lucro (o dinheiro no seu cofrinho, aquele dinheiro que você está juntando para ir para praia), lucros/prejuízos acumulados (tudo o que está acumulado nos outros períodos analisados), ajustes na avaliação patrimonial, ajustes acumulados de conversão, outros resultados abrangentes e adiantamento para futuro aumento de capital (dados que não são muito importantes para o pequeno investidor).

Os dados analisados de um período de nada falam sobre a empresa. Devemos analisar sempre vários períodos e compará-los, sejam eles trimestrais, semestrais ou anuais. É comparando os balanços que vemos como a empresa está indo com o passar do tempo. Fazendo uma comparação com a compra de um carro,  é como se analisarmos um zero quilômetro, depois de alguns meses rodados e depois de alguns anos, tudo isso para ver se ele está em nossa expectativa ou não. Mas a análise de balanço seria como ver os dados técnicos do carro e ele parado no estacionamento. Podemos ter uma noção do que está acontecendo analisando sua potência, quantidade de marchas, como está os pneus e a pintura, no entanto, somente quando entramos no carro, ligamos o motor, aceleramos e andamos com ele é que temos ideia se ele está bom ou ruim.

Com isso, precisamos de informações adicionais para entendermos como é o dia-a-dia na empresa. Assim temos que analisar também os Demonstrativos de Resultados.

Demonstrativos de Resultados

Exemplo de demonstrativo de resultado
No demonstrativo de resultados, podemos ver se a empresa está "atropelando válvulas" ou se está andando como uma Ferrari. Nesta parte da análise, temos as divisões de Receita Bruta de vendas e/ou serviços (de curto e de longo prazo, aqui temos quanto a empresa lucrou ou irá lucrar com a venda de produtos ou serviços prestados), Deduções de Receita Bruta (produtos com defeito ou serviços que são gastos da empresa são apresentados aqui), Custo de bens e/ou Serviços Vendidos (os custos para vender ou prestar serviços, seria o valor pago do produto para um varejista por exemplo). Depois de somar e subtrair esses dados chegamos no Resultado Bruto (aqui temos o lucro bruto da empresa). No entanto, temos que retirar deste valor as Despesas Com Vendas (gastos com combustível, vendedores e afins), Despesas Gerais e Administrativas (gastos com gerentes e pessoal que não trabalha com o core da empresa. Seriam os colarinhos brancos), Perdas pela Não Recuperabilidade de Ativos (são os restos de comida que ficam no prato de um restaurante "coma o quanto aguentar"), Outras Despesas Operacionais (também temos as Outras Receitas Operacionais, onde coloca-se tudo o que não pode ser categorizado) e os gastos Financeiros (gastos com câmbio por exemplo). Depois de todas estas deduções nós podemos acrescentar no que sobrou o Resultado Não Operacional (aquele chiclete que você vendeu para seu sobrinho no nome da sua empresa especializada em faxina. Aqui fica a receita das vendas e prestações de serviços que não são recorrentes e que não fazem parte do core empresarial). Depois de tudo isso teremos o Resultado Antes da Tributação/Participações (Esta informação é muito importante para compararmos empresas que não fazem parte do mesmo setor. Como temos tributação diferente para diferentes empresas, este valor serve como uma ANALISE UNIVERSAL). Após este ponto temos que retirar do valor a Provisão para IR e Contribuição Social (quanto foi pago ou será pago para o leão), somar o IR Diferido (o que voltou do imposto de renda),  retirar ou acrescentar as Participações/Contribuições Estatutárias, Reversões dos Juros sobre Capital Próprio e as Participações de Acionistas Não Controladores (várias informações que não são importantes para o pequeno investidor). E então depois de tudo isso, é que temos no Lucro/Prejuízo Líquido do Período. Está é a principal informação para o investidor, ele precisa saber se a empresa está dando lucro ou prejuízo. Todas as informações adicionais são apenas detalhes que precisam ou não serem analisadas.

Sabendo o que cada informação dos balanços apresenta, podemos começar a análise, mas isso deixo para a próxima parte do tutorial.